A endometriose, uma doença inflamatória crónica que afecta cerca de 1 em cada 5 mulheres, está finalmente a ganhar investigação mais focada e abordagens de diagnóstico inovadoras. Durante anos, a doença – em que tecido semelhante ao revestimento uterino cresce fora do útero – tem sido notoriamente difícil de diagnosticar, muitas vezes exigindo cirurgia invasiva. Mas está em curso uma mudança, impulsionada pela investigação genómica, pelas empresas de biotecnologia e pela melhoria das técnicas de imagem.
A comparação do câncer: o que a ciência diz?
Comparações recentes entre endometriose e cancro decorrem de mecanismos biológicos partilhados: ambos envolvem danos nos tecidos, inflamação e potencial para metástases benignas. Estudos genómicos de ponta, como um concluído recentemente por investigadores do Institut de Recerca Sant Pau e da Escola de Medicina de Yale, confirmaram que a endometriose partilha vias moleculares com o desenvolvimento do cancro. No entanto, é crucial compreender que a endometriose não é câncer. A conexão destaca a complexidade e a natureza sistêmica da doença, envolvendo desequilíbrios hormonais, disfunção imunológica e inflamação.
A epidemia não diagnosticada: quantos sofrem em silêncio?
Uma parcela significativa das pessoas com endometriose permanece sem diagnóstico. Estudos de rastreio por ressonância magnética indicam que cerca de 11% das mulheres na população em geral têm provavelmente endometriose não diagnosticada, somando-se à já conhecida prevalência diagnosticada de 10%. Isto sugere que a verdadeira prevalência pode chegar a 21%, o que significa que milhões de pessoas vivem com dor crónica sem um diagnóstico claro. O atraso no diagnóstico deve-se muitas vezes à natureza invasiva dos métodos tradicionais (laparoscopia) e à consciência limitada entre os profissionais de saúde.
Diagnóstico não invasivo: exames de sangue, saliva e fluido menstrual
A busca por diagnósticos não invasivos está se acelerando. Ziwig já integrou um teste de saliva no sistema de saúde francês, embora a sua precisão continue a ser debatida. Várias empresas de biotecnologia – Kephera Diagnostics, Proteomics International, DotLab e Endodiag – estão a desenvolver análises ao sangue, mas os investigadores sublinham que os biomarcadores isolados são insuficientes. Em vez disso, é essencial analisar vários biomarcadores em relação uns aos outros.
O diagnóstico de fluidos menstruais também está ganhando força, com empresas como Endometrics e Feinstein Institutes projetando kits de coleta domiciliar e dispositivos aprimorados para testes mais fáceis. Endogene.bio é outro player neste espaço. No entanto, os especialistas alertam que estes testes devem ser acessíveis, associados a cuidados especializados e capazes de distinguir a endometriose de condições como a adenomiose, para evitar sobrediagnósticos ou atrasos no tratamento.
Além dos exames de sangue: novas abordagens para o diagnóstico
As empresas também estão explorando técnicas aprimoradas de imagem. A EndoCure está desenvolvendo ultrassom robótico alimentado por IA para detecção de endometriose, enquanto a 3CPM Company está medindo a atividade alterada do músculo liso gastrointestinal causada pela doença. A Universidade de Washington está testando sensores vestíveis para detectar contrações uterinas anormais antes que as lesões se tornem visíveis.
Criticamente, médicos qualificados agora alcançam alta precisão diagnóstica (80-90%) com ultrassonografia transvaginal avançada e ressonância magnética. As diretrizes atualizadas da ESHRE recomendam reservar a laparoscopia para casos em que os exames de imagem são inconclusivos ou o tratamento empírico falha.
Tratamento: além das terapias hormonais
As terapias hormonais (pílulas anticoncepcionais, progestágenos, agonistas/antagonistas do GnRH) continuam sendo o tratamento médico de primeira linha, com o objetivo de suprimir o estrogênio e reduzir a inflamação. No entanto, estas terapias muitas vezes proporcionam apenas alívio temporário e apresentam potenciais efeitos colaterais. O tratamento da dor com AINEs pode ajudar, mas não trata a doença subjacente.
Um grande desafio é a abordagem de tentativa e erro à medicação, onde os pacientes passam por tratamentos durante anos sem saber o que funcionará. Um novo estudo de medicina de precisão liderado pelo Hospital Clínic de Barcelona está a recrutar pacientes para analisar marcadores farmacogenéticos, na esperança de prever antecipadamente a resposta ao medicamento e os efeitos secundários. Isto poderia revolucionar a seleção do tratamento e minimizar o processo longo e frustrante que muitas mulheres enfrentam atualmente.
Concluindo, a endometriose está deixando de ser uma condição mal compreendida e diagnosticada de forma invasiva para uma condição com métodos não invasivos cada vez mais precisos e estratégias de tratamento personalizadas. Embora os desafios permaneçam, o ritmo da inovação sugere um futuro onde o diagnóstico será mais rápido, o tratamento será mais eficaz e o sofrimento de milhões de pessoas poderá ser significativamente reduzido.
